
Minha vizinha é engraçada.
Ela deve ter uns dez anos e tem uma voz fina, mas bem forte.
Era sexta à noite e eu estava lendo no quarto. Ouvi a buzina. Três toques seguidos.
- “Já vai!”, rebateu ela, enquanto corria pra algum lugar - só pude ouvir os passos.
A mãe chamava a atenção dela pra alguma coisa.
Mais cedo, enquanto a minha mãe entrava no condomínio, ela apareceu na varanda de casa - moramos em uma vila com um prédio pequeno, onde eu moro, e algumas casas; a dela fica em frente ao meu apartamento. Apareci na janela depois do assovio clássico da minha mãe. Ela esperava ver meu irmão, que tinha saído há poucos minutos. Queria mostrar o Chocolate, um vira-lata serelepe que estava circundando o condomínio há alguns dias e conquistando o coração da minha mãe com as gracinhas e saltinhos que dava.
- “Ele é muito fofo!” - ela disse da varanda.
- Ele é mesmo - eu respondi.
- “Oi!” - Saiu da varanda e chegou mais perto. Me cumprimentou acenando um “tchau” de longe. Achei curiosa a simpatia dela.
- Oi! - respondi com um sorriso surpreso pelo “oi” de meio de conversa.
Chocolate foi pular nela.
A gente falou mais algumas coisas em torno das fofuras do vira-lata, dos outros cachorros que surgiam por aqui de vez em quando, se era macho ou fêmea. A mãe dela apareceu na varanda e a chamou a atenção por alguma coisa. Acho que ela tinha deixado algo fora do lugar em casa. Fiquei prestando atenção no leve esporro por algum tempo até me tocar e sair da janela. Nem sei se eu realmente prestei atenção. Fiquei ouvindo, vendo e fui transportada para outro lugar.
Fiquei pensando na vontade dela de só estar ali, interagindo com gente diferente ou brincando com um cachorro fofo. Fiquei pensando na preguiça de ir colocar a tal coisa no lugar. Nas obrigações versus as diversões. Na diferença entre adultos e crianças. Em como os adultos se esforçam para controlar tudo e em como as crianças tem um jeito leve de viver. Pensei na tentativa da mãe de impor autoridade, nas cobranças por obediência, na submissão da criança e na aceitação a contragosto. Pensei em liberdade, escolhas. Ela queria ficar ali, mas tinha que ir. Eu vi. O corpo inteiro dela dizia “quero ficar aqui”.
É tão gostoso ceder à nossa criança interior e se deixar viver com mais leveza, menos cobrança e apreciando as pequenas coisas do dia a dia. E reconfortante também é saber que temos escolha. A qualquer momento podemos tomar as rédeas da nossa vida, assumindo a responsabilidade pelo que somos e vivemos. Fosse lá o que fosse a realidade, a minha estava ali, bem diante de mim. Em um piscar de olhos voltei.
Minha vizinha é engraçada.
Quando não é ela que corre pra algum lugar, tira a coisa do lugar, leva a gente de lugar.