"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A procura

Onde está o amor?
Olhei pela janela em dia chuvoso e não vi
Enfrentei a fila do pão e também não encontrei
Até li alguns poetas, mas por hora, ainda não achei

Onde está o amor?
Procurei em algumas paixões, mas foram todas vis
Nos homens, nas mulheres em todos aqueles que passaram por mim
Um dia vi uma peça e um personagem dizia assim
“Existem vários amores na vida”
Se ao menos aparecesse um eu já tava feliz

Onde está o amor?
Nem o google viu - eu já perguntei
Ele me corrigiu com aquele “você quis dizer”
Aí apareceu um monte de resultado
Qual amor você quer pra você?
É tanta opção, pode até escolher
A cor do cabelo, classe A, B ou C
Mas o jeitinho dele não deu pra ver
Algoritmos inteligentes
Os adjetivos quase convencem
Mas não são suficientes
Pra responder 

Onde está o amor?
A magia, o frio na barriga?
Olhar aquela pessoa na rua, me sentir atraída
Imaginar nossa vida inteira juntos,
Quem sabe tentar uma investida?
Sem medo de rejeição
Me interessa mais a conexão
Aquela que vem da alma e do coração 

Onde está o amor?
A pergunta que não quer calar
Meu coração abafa, to cansada
Mas insisto em perguntar

Onde está o amor?
Vou viver mais um pouco
Conhecer o caminho dos loucos
Que se aventuram e saem da zona de conforto
Descobrir com meu próprio corpo
Me ver mais vezes no outro
Olhar nos olhos e sentir
Quem sabe assim
O amor olhe de volta pra mim


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Fim de tarde sépia

Talvez tenha sido pela chuva fina e o pôr do sol nessa época do ano. Não sei. Mas o fim de tarde nublado na primavera deixou o dia amarelado e, pelo menos, por alguns rapidíssimos minutos, tudo tinha aquela tonalidade. Parecia filtro do Instagram. 

Me lembrou um sonho que eu tive muito pequena com Maria e João, os irmãos da lenda. Eles soltavam pipa na calçada da casa do meu pai, lá na vila. Estavam parados, um bem ao lado do outro, sérios e mudos. O céu também estava nublado e tudo tinha essa cor. Esse tom. Eu sentia a mesma sensação de “antigo”. Era tão real. Estava eu, sonhando, mesmo?

À medida em que a memória se esvai, me deparo com as gotas da água da chuva na janela do ônibus e volto a observar a rua. As pessoas pareciam bronzeadas. Cada tom de pele ganhou uma intensidade única. As árvores brilhavam. Na altura do Terminal Rodoviário, eu vi uma que me tomou inteira. Pequenina, delicada, com folhas bem verdinhas, bem desenhadas e vários pequenos grupinhos de flores vermelho-paixão espalhados por ela. Tanta beleza não era crível. Não era daqui. Eu estava sonhando? Bem ali. No meio do caos. Raízes, tronco, galhos, folhas, flores, frutos. Arte concreta. Fiquei admirando a árvore naquela luz. O verde saltava em contraste com o céu beje, os prédios cinzas, as lojas lotadas, os carros apressados e outros ônibus grosseiros que passavam. Eu estava sonhando?

Aquela sensação não passava.

Às vezes eu sinto assim. Que a vida é um longo sonho. E quando a gente dorme, na verdade acorda. Sonho é quando a consciência levanta e visita o infinito que é a existência.





domingo, 9 de dezembro de 2018

Lia Nectarina


Era oceano profundo 
Aquele amor.
Que só cabia nela
Como? […] Não interessa
Saber para quê?
Sentir bastaria

Lia
sente com tudo de si
Desconfia
querendo confiar logo
E a vontade de viver o romance
dormia
embora vez por outra acordava
irritada, melancólica
Sofria

Alguns dias 
apenas a inspirava a ver como
poetisa
Outras ocasiões
saía
a seduzir quem lhe atraísse e lhe desse ouvidos

Clandestina
Olhar intruso, como quem
Incita
ao desejo
Ela transgride com o olhar por pura diversão
puro fogo
Cínica
Logo dissimula
com um sorriso doce
e te faz engolir a
saliva

Oscila
entre anjo e serpente
Convida
a sentir o gosto
Fruta mordida
suculenta nectarina
Mata a sede sem pudor
Deixa escorrer por entre os lábios
Amor

Ah…
que delícia seria pra Lia
se essa euforia
fosse mais do que uma fantasia
E você?
Continua sem saber
Como ela queria saber
se você
a
Lia.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

o verbo

Eu poeto
Tu poetas
Ela? Poeta. Ela poeta!
Ela faz o mundo dela
Ser assim
Conversar com plantas não é coisa de gente doida
É coisa de moça que, poeta, gosta de acreditar
Eu danço
Tu danças
Ela? Dança. Ela dança!
De tanto que chega a transpirar piruetas
Gira mais que o sol, na pista imaginária que cria pela casa, por onde passa
Eu canto
Tu cantas
Ela? Ela também.
Se canta a si mesma. Em frente ao espelho. Debaixo do chuveiro.
Eu
Tu
Ela
Essa menina é o que?

É o que ela veio ser.   

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Às margens de um rio ou à beira mar, busco equilíbrio na vertigem silenciosa que é se deixar levar. Não por desleixo ou coisa assim. É que não confio apenas no que brota de mim. Tem um inteiro nada pela frente. Fundo. Absoluto. Amor? Sem fim. Não sei o que me espera. Quem dera. Poder me banhar, me emaranhar nas águas e de tão fluida, quase desaparecer.

ser em fragmentos

Ventos artificiais
Balançam meu cabelo
Olhando pela janela do trem
As gotas da chuva que ainda não veio
Eu sinto um peso no peito

Serei eu o que vim ser?
Se esse vento soprasse tudo e levasse embora até o que eu penso que eu sou
Se o dente de leão tem mais graça quando se desfaz
Voar em pedacinhos
Se deixar levar
Se não doesse tanto

terça-feira, 21 de agosto de 2018

ser infinitesimal

imagina como deve ser para as formigas
um arbusto, toda a floresta amazônica
os matinhos do meio fio, árvores imensas
nós, seres humanos
um mistério completo

no mundo das formigas
nosso mundo é como a galáxia
como o resto do universo é pra nós
de seres inimagináveis que indagam:
imagina como deve ser para os terrestres

e nesse ciclo infinito
quem dirá o que é a vida ou a verdade
senão um completo mistério
um nada e um vazio?

não há mais o que dizer
a palavra não mais cabe
ante a vastidão do silêncio
o vácuo é a grande casa
nele cabe tudo ou quase tudo
é onde habita o mundo?

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

de rio e de mar / águas do Pará

E se eu rio e choro
Eu, oceano 
Me derramo, me demoro 
Deito 
No leito do rio 
Doce jeito de salgar 
Correnteza vai levar 
Pro rio o sal do mar 
Desaguar 
Rio resiste
Salobra ficará 
Águas fortalecidas 
De rio e de mar 

(Escrita na Ilha de Marajó, PA. 2018)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Mil vezes mulher

Quantas vezes eu vou ter que gritar pra fazer a sociedade aceitar que o que tá errado não sou eu? Todo dia um manifesto feminista é necessário pra abrir a cabeça de mais um otário Mais um esquerdo-macho Se achando revolucionário Só põe bronca no discurso na ação é tudo igual Pensa que é o correto mas oprimir já é tão trivial Racismo velado Machismo no ato Cês tão de que lado? Discurso barato Chega a ser caricato Observo o gato No fundo, um rato Que só se preocupa com o próprio falo E na roda de amigo Deixa passar batido Não entra em conflito “ah, não precisa disso” Vai ver os números, tá tudo escrito Mais uma pra conta do feminicídio Diariamente banalizam a violência tira a mão do pau e coloca na consciência Ta achando que é mimimi? Então se liga aqui: Todo dia 12 são assassinadas Isso pra você não significa nada? 135 estupros por dia Amanhã pode ser a sua filha 42% sofrem assédio sexual Você ainda acha que isso é banal? Meu sonho é andar na madruga Na rua Escura Me sentir segura Ou então no trabalho Não ser mais um alvo De um macho safado Que abusa do cargo E o pior é que você não vê Quando questiona nossa reação Mais julga que procura entender Eu ainda não sei o porquê Como a prepotência machista toma a mente de um ser Cobra atitude da vítima e nem pensa na dor Como se a responsa fosse nossa e não do agressor Mas isso vai mudar A gente vai incomodar Vocês vão ter que se incomodar Tá na hora de começar a pensar

quinta-feira, 12 de julho de 2018

ser sem fim

, eu sou inteira oceano
E quando não puder mais navegar
Serei inteira constelações
E quando já não puder mais brilhar
Serei céu inteira
E quando não puder ser mais infinita
Serei vácuo
E se ainda assim, não puder ser o tudo
Serei o nada
Sereia
Iluminada
Imortal
Inacabada,

domingo, 10 de junho de 2018

o tudo que transborda

Isso é um pouco do meu tudo
E isso eu não te dou
Pra sobrar um pouco de mim pra mim
Essa intensidade
Que arde
E chega ser febril
Ela queima
Não é que não quero dar
É que eu quero tanto
Que acaba não cabendo
E o tudo se esvai
No que dou o meu tudo
Qual outro mundo recebo?
Qual tudo?
Você traz tudo de si?
Eu levo comigo tudo de mim
Tudo o que sou
E tudo o que tenho
Pra eu viver
E pra você
Me contorço e deixo arder
Quase tudo

caça ao tudo sagrado

então estamos a par
eu não entrego o ouro escondido nas profundezas do meu mar
e você voluntariamente não abre a trilha pra eu entrar
subvertemos o convite a desafio
e veremos no que dá

sexta-feira, 8 de junho de 2018

namorinho

namorinho no portão, no parque, na laje, de tarde, toda hora. namorinho no jardim, na calçada, na varanda, na cama. namorinho na rua, na chuva e na fazenda. namorinho na praia, na cachu, no leito do rio. namorinho na areia, na beira do mar. namorinho na terra, no fogo, na água e no ar. namorinho onde tiver, onde der, onde meu coração e seu coração encontrar lugar, onde nosso olhar se achar, onde a alma dos dois se conectar. namorinho faz nariz o franzir,  o olhar sorrir e o coração falar. namorinho dá saudade de encaixar. namorinho te faz voltar. namorinho é jeitinho de amar. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

O amor

Eu digo que o amor é a coisa mais linda
Porque é sempre diferente, fênix
Ele muda, transmuta
Como uma pedra bruta que se lapida
O amor chega pra gente se aperfeiçoar na vida
Continuar, buscar, melhorar


Eu amo amar e trocar amor
Ele é pura energia
Sentir é maravilhoso
Quando brota, contagia
A alma meio que brilha
O corpo renova, respira


Quando eu sinto a energia do amor
Cada célula do meu corpo sente junto
Cada molécula emana as emoções dele
Há muita ciência no amor

E explicação nenhuma

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Dois encontros


Sua música tocou
Minha alma dançou
E gente ficou assim, gostosin
Clima bom, vibe boa
A energia quando flui deixa a gente solta
Não tem muito mistério, quando é de verdade
É que a química é certa quando o santo bate
Felicidade é um pouco assim
O coração parece que cresce
Dá um aperto pensar no fim
Vontade de ter só pra mim
Nem que seja só um pouquin
Mas não vou te enganar
Se de ti eu gostar
Se teu flow confirmar
Eu vou querer mostrar
Meu repertório de amar

terça-feira, 17 de abril de 2018

1440 amores por dia

Eu olho
Vejo
Imagino
Escolho
Projeto
E até gosto
Não cai mal,
Fluiu bem
Me apaixonei
Mas não há esse alguém
Na real eu inventei
Na hora que passei
Na rua, por quem cruzei
Nem vivi, imaginei
Já sofri e já curei
Sinal fechou, atravessei

Caminho seguiu, continuei.

segunda-feira, 12 de março de 2018

desejos honestos

Às vezes é preciso retomar à infância e voltar àquelas atitudes de criança. Se experimentar sem preconceitos, vergonhas, pudores e o que quer que se faça obstáculos pra ter a experiência genuína de aprender. A criança é muito honesta e autêntica naquilo que faz. Ela faz e pronto. Ela fala e pronto. Se tiver que perguntar, pergunta. E o coração segue leve. Se tiver que cair, se ralar toda e chorar no colo de alguém, também faz. E no final, dá licença, que eu preciso viver tudo de novo.

quinta-feira, 8 de março de 2018

8 de março

Mas a gente, que é fortaleza, sabe se curar
E quem nasce guerreira, nasce pra lutar
Eu já sofri assédio, relacionamento abusivo
Ouvia histórias de outras mulheres, nunca imaginei comigo 
A vida segue e eu segui também 
Me fortalecendo e com apoio delas,
De macho nenhum fui refém
Falam que a gente se odeia, pregam competitividade
Deve ser pra gente não se unir e transformar a sociedade
Porque mulher quando se ajuda é extraordinário 
Nas manifestações, por exemplo, o sentimento é revolucionário
Vida pra mulher é luta todo santo dia
A história de cada uma tem dor e poesia
Hoje é dia 8 de março e eu já me emocionei com todas vocês 
Por isso vou escrever os primeiros versos mais uma vez
A gente, que é fortaleza, sabe se curar
E quem nasce guerreira, nasce pra lutar.

Respeito, acima de tudo e igualdade para uma sociedade justa. Luta e poesia pra nós!