Será que foi o outro que me enganou ou eu que me enganei com a minha vontade de acreditar? A fantasia é sempre mais bonita que a realidade e o desejo enorme que ela se torne real é que me faz dar força a todas as ilusões pra tentar trazê-la ao concreto. Pra poder dizer "finalmente!". Mas o tombo vem. E no fim, a sensação “eu já sabia”. A minha intuição já tinha me dito há muito tempo, eu já tinha muitos sinais, mas preferi ignorar todos em nome da alegria e do prazer enorme de finalmente realizar a fantasia tão linda, sonhada e brilhosa. Talvez amadurecer seja ignorar menos os sinais. Talvez seja não ceder tanto a esse desejo infantil teimoso de viver de fantasia, de trazê-la para o real, de como eu quero que as coisas sejam como quero e espero. Vai ter decepção, sabe? É sofrer com elas e seguir a vida porque faz parte. Mas sofrer um pouco menos, talvez. Sempre um talvez. Nunca um sempre. Nunca um nunca. Talvez sofrer diferente, talvez não sofrer. E então?
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
domingo, 31 de outubro de 2021
com amor, eu
Eu sou amor de verdade.
Amor profundo. Desses que fica.
Amor com todas as letras.
No que eu nem sei.
Eu amo com o coração dado
quando amo.
Quero dar mais a mim
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
Beijo antropofágico
Que me engole
E quer mais
E me atrai feito ímã
E que eu beijo
E me abro de volta
E em voltas
Nossas bocas e línguas
Envoltas
Fazem circo
Pegar fogo
Não desgruda
Morde com ternura
Suga
Meu ar no seu já é um só
O resto não importa
Enquanto não saciar
Mais um gole do desejo
Desse beijo
Que me engole
E me quer de volta
Eu quero
Eu quero voraz
E calmaria
Tudo começou com o quase beijo
No canto da boca
Na hora do oi
Não quis dar mais tchau
quinta-feira, 22 de julho de 2021
Oração sagrada
Se a dor é inevitável,
E a vida, impermanência,
E eu, um ser sensível, relacional e amoroso - um tanto carente e fantasiante
Que não me falte o choro na hora que eu precisar
Que eu saiba suportar os lutos e desilusões
Que eu não evite o amor só para evitar o sofrimento
Que eu encare o que me incomodar e resolva mais rápido
Que eu aprenda a amar melhor e a sofrer menos
Mas sem pressa (de saber)
A pressa cansa e me faz querer desistir
Que eu tenha paciência com o meu tempo e o tempo das coisas
Que eu confie na vida e saiba compor com ela
E, por favor, por tudo o que é sagrado, que eu apure os meus ouvidos e sentidos para ouvir e atender, sempre que possível, o meu coração
E assim, fazer escolhas mais honestas em todas as áreas da minha vida.
domingo, 11 de julho de 2021
A trilha do Alto Mourão ou um relato de um coração que trilha
Foram 4km e 420 metros de subida.
Eu já cheguei querendo andar no pique, mas aos poucos fui me
adaptando e encontrando o ritmo alinhado ao de Mel, minha irmã e Ray, amiga nossa.
Uma guiando a outra em momentos diferentes da trilha. Pausa pra um grupo grande
passar. Pausa pra um ruído passar – uma caixa de som com "tuntstunts" competia com o som ambiente (nada contra, apenas tudo). Pausa pra fotografar. Registros.
Calcular onde pisa, ter cuidado com as folhas, com a lama. “Cuidado,
você pode escorregar e se machucar”, um grupo nos avisou. Uma pessoa que torceu
o pé no último trecho do caminho foi resgatada pelos Bombeiros por helicóptero
- às vezes a coisa pode ficar realmente séria.
Eu já escorreguei trocentas vezes, já fui picada por uma
aranha, já pulei uma cobra que surgiu no meio da trilha, já me estabaquei entre
galhos, já fui picada por mosquito e voltei empolada precisando de
antialérgico, já me ralei escalando pedra, já corri de meia dúzia de vespas. Ih...
Ainda assim, eu não perco o prazer de fazer uma boa trilha. Às
vezes bate um puta cagaço de subir um trecho íngreme e exposto, óbvio. Eu
calculo e assumo o risco. Gosto de tentar sozinha, mas, também, se me oferecem
ajuda, eu aceito. Ofereço quando posso - apoio moral, principalmente.
As coisas que acontecem vão ensinando cada vez um pouco mais,
sobre o que está em jogo e como fazer o manejo disso, sobre estar ali. E pra
mim é um realmente um prazer estar ali, no meio do mato todo, ouvindo os animais,
os barulhos do caminho, sentindo o sol ou a chuva, sentindo o vento, percebendo
meu corpo, meus batimentos, meus passos, minha respiração, meu suor.
Escuta. Visão. Ou “escuta, visão!”. É visão se escutar.
Um dia antes da trilha, fiz um treino funcional (não tão
funcional assim, rs) mais pesado, ignorei meus limites e ultrapassei a linha do
suportável pelo meu corpo. O resultado? Queda de pressão, quase desmaiei. Fiquei
bem depois. Mas entendi que é melhor não chegar a tanto, saber se ouvir é
importante.
As trilhas parecem me ajudar a me escutar de maneira gradual
e gentil, um passo por vez, a me desafiar. No caminho, os ajustes possíveis, atenção
à intuição, ao entorno, aos limites, aos sinais.
Essa trilha, da Pedra do Elefante ou Alto Mourão, eu queria
fazer há um tempo. Na semana passada, inclusive, falei dela e hoje eu tenho
essa foto bonita no pico mais alto da cidade que me pariu.
Foi bom.
Andei, subi, escalaminhei com vontade, corri. Vi
borboleta, escutei passarinho, senti o cheiro verde da mata e de terra molhada,
abracei uma árvore e fiquei siderada pela vista do cume. As mãos ficaram
marcadas pelas pedras. As pernas estão sentindo cada degrau agora. O corpo tá
cansado, mas tô feliz.
Ela foi um mix de fazer acontecer algo que eu queria, assumir os riscos, ter atenção aos próprios limites, receber ajuda ou oferecer quando necessário, apreciar o trajeto, admirar a chegada e depois descer tudo de volta.
terça-feira, 25 de maio de 2021
Declarações de uma analisante
Fazer análise é bom
A gente vai se tornando mais a gente
Se assumindo mais
A gente sai do armário
Se liberta um pouco
De si, do outro
Do Outro
Sem abdicar de trocas
A gente negocia mais
Por isso que a gente ganha mais
Qualquer coisa: dinheiro, amor, trabalho, amigos, noites de sono, prazeres diversos
A gente chora a fantasia perdida
A fantasia achada, antes
Ah, é duro
O real invade e não pede licença
Mora no peito com uma faca afiada
O espelho encara sério
Perguntas, muitas perguntas
Resposta, quase nenhuma
E melhor nem perder tempo – elas mudam, elas riem da nossa cara com contradição e mutação constantes
Eu amo
Eu odeio
Eu queria todo dia
Mas não sei se aguentaria
É foda
É lindo para caralho
E o caralho, que eu nem tenho, e me falta
A falta, feminina que sou, me preenche
Como nada mais consegue
E que bonito
O desejo
É sobre isso
Eu acho
Vou sonhando para ouvir o inconsciente
Meus amontoados sem lei
Sem lei? Não sei
Vou desenhando
Fazendo arte
Fazendo análise
Fazendo a vida
Com mais de mim
sexta-feira, 21 de maio de 2021
um gosto de que (?)
Eu comporto as duas
As várias, muitas
As coisas nuas
Ácidas ou duras
Difíceis demais
Para dizer em voz alta
Doce e linda
Azeda e insuportável
Se porta o que me cabe
Bom
Se traz o não-lugar
Aguente
Eu nunca disse que seria fácil
Sustente
E se sobreviver, fale
Vou adorar saber
sábado, 15 de maio de 2021
Pérola
Um processo lento e raro
Um recurso caro
Um grão
Um abrigo
A concha se fez esconderijo
Tenho estado como “pérola”:
Me (re)fazendo com calma.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
Carta-semente
Oi,
Eu sou Camila. Uma jovem moça de 26 anos e 10 meses. Jornalista de formação, curiosa por Psicanálise e coisas do coração.
Gosto de fazer poesia com a vida, o que é quase um sexo, mas acho que mais excitante - jamais subestimando o sexo, por favor! (Inclusive gosto muito.) É que poesia é um caso a parte, realmente.
Enfim.
Meu olhar para o mundo tem sido mais vivo nos últimos dias. Não sei se pelo fim do último namoro, não sei se por vivenciar tanta morte e luto e tristeza à minha volta ou por ter saído de um poço bem fundo e depressivo e agora me sentir mais forte, mais minha, mais viva, mais aqui e agora e de coração aberto. Sobretudo, acho que isso se deve ao fato de ter percebido que não sou imortal. A vida acaba. Eu vou morrer, como todo ser humano morre. Paulo Gustavo morreu, isso me doeu de um jeito tão intenso, tão triste.
Coragem.
Essa palavrinha mágica é que tenho tentado cultivar nas minhas vísceras.
Para viver preciso tanto dela.
Percebi que a vida é o maior presente. Tenho acordado todos os dias e desejado "bom dia, mundo!". Tão bom estar viva para dar bom dia ao passarinho, à árvore, ao ventinho e à brisa das manhãs de outono. Como eu amo o outono! No fim da tarde me inspira com as cores. No fim da noite me inspira o aconchego romântico do meu coração apaixonado e poético.
Além disso, tem encontros que acontecem que tiram a gente de órbita por alguns minutos e fazem borbulhar umas cosquinhas gostosas na barriga, invadem o peito, e a alma dá sinais de alegria. É como uma dança linda, uma vida de sentido acontecendo diante dos olhos, o brilho e o calor da chama que nos move adiante ficam grandes e querem se espalhar por entre os poros e para sempre.
É um infinito num segundo.
A intensidade de viver com presença. A calma e a cautela de existir sendo, deixando fluir, seguindo o coração, confiante na vida.
Uma carta de amor e tesão pela vida.
Deve ser isso esse escrito.
Deixo aqui. Quem ler, que receba a sensação alegre e de amor invadindo o coração e criando raízes nutritivas para uma existência sensacional, única, autêntica!
Que os sentidos se abram!
Um beijo,
Camila.
sábado, 8 de maio de 2021
aventuras no astral
Eu vou jogar pó de pirlimpimpim
Só pra você vir
voando aqui
Eu sopro uma
brisa pra te buscar
Vem?
A gente se dá
carinho
Se conseguimos,
ao nosso jeitinho
Sem pensar muito
Vem...
Passeia comigo
No astral, no profundo
No calor no
cardíaco
Onde eu e você sentimos
Vem,
Fecha os olhos
Não tem perigo
Nem garantias
A brisa é leve
E o vento,
amigo
Vem:
É permitido visitar
Pirilampeie no
meu mundo
Pra depois de volta
voar
terça-feira, 4 de maio de 2021
coração, eu te amo
O mundo
pode estar difícil
bem difícil mesmo
mas lembra
que o amor existe
e resiste
observa
no fundo da alma
bem dentro do peito
num lugar secreto
o amor habita
é lá onde você
pode se buscar
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
exaustões existenciais
cansada
cansada
nada
o que pulsa
elas fazem barulho
estão me contando histórias antigas
dos tempos de menina
elas borbulham
saem pelos poros
na boca
e nos olhos
a lágrima que rega o rosto
mata um pouco a sede
um pedido, tempo
peço ajuda para acompanhá-lo
já passei correndo muito
um descompasso
ora preciso esperar
ora passar
ritmar
você me alcança
ou eu te alcanço?
caminho do meio
segura minha mão?
assim não me perco tanto
as vezes é desencontro
numa pressa de ver
atalhos equivocados
alongam a fio
o que não precisa ser
ah, tempo
que difícil você
sou eu, eu sei
de insistir tanto
nessa cisma turra
de querer
no meu tempo
o que vem com você
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
balança
Não, não dê tudo
Saiba guardar seu quinhão
Calcule
E cuide
Pra que não sobre e nem falte demais
É duro as vezes
E nem é simples medir
Mas vale
Muito
O valor que você dá
Você pode estipular
Vá percorrendo caminhos seus
Sem prescrições
Sem previsões
É seu
E é só dentro que se tem resposta
Pra isso que você quer
Pra o que lhe cabe
Corre, mulher
Vai fazer
É da tua conta
Esse fazimento de si
Deixa de se iludir
Você já tem perguntas demais
Vazios demais
Vambora.
