Uma
história é contada sempre do ponto de vista de quem conta. Como estudante de
Jornalismo, ouvi bastante sobre “lei das três fontes”, que diz que se deve consultar
pelo menos três fontes de informação diferentes para confirmar um fato, uma
história. O engraçado é que mesmo careca de saber que isso é imprescindível na
minha profissão, não notei o quão imprescindível o é também na vida de uma
forma geral. E de fato, poucas vezes apliquei essa lei na minha vida pessoal. Poucas
vezes procurei outras versões.
Apurar
é uma arte. Dá trabalho, envolve muita pesquisa, leitura do assunto, escuta. É
preciso procurar e confirmar informações a fim de chegar ao maior número de “verdades”
(e versões) possível, confrontando todas elas e para chegar a uma conclusão. Às
vezes nem se chega a uma. Às vezes ela é temporária. E é uma arte porque se
trabalha o ouvir, o escutar e o observar; o que vem do outro, de fora. Tira o
foco de si, do que você tem, do que já sabe.
Só
que é realmente difícil aplicar na vida pessoal. Já pensou em como seria se
alguém te dissesse que o que você acreditou a vida inteira é uma mentira? É um
choque. É desconfortável. Descontruir tudo que foi embasado em uma mentira não
é para qualquer um. Exige firmeza, vontade e sensibilidade. Tudo tem seu tempo.
Tempo de ouvir, tempo de entender, tempo de concluir e de falar. Mas, será que vale?
Será que a “verdade” é realmente o mais importante ou a felicidade e o bem
estar (ainda que superficial e mascarado)? Nem sempre a verdade convém e, em
contrapartida, nem sempre o que é confortável é o melhor.
Se
agarrar a uma só versão da história aprisiona o ser humano. Dá uma visão
distorcida e parcial da realidade. Quantas infinitas possibilidades de
situações distintas poderiam se apresentar na sua vida se você abrisse o leque
de pontos de vista. Como a Alegoria da Caverna, de Platão. É preciso se libertar das suas correntes e buscar
outras versões para conhecer, de fato, a realidade. Para conhecer a história
completa, real, é preciso perguntar, questionar, consultar várias fontes. É
preciso ouvir o outro, um outro que você ainda não ouviu. Isso é transformador.
O
risco de ser maniqueísta, de determinar um vilão e uma vítima é grande e não é
assim que funciona. O exercício de ouvir o outro dá a possibilidade de notar as
verdades e mentiras implícitas nas versões de cada um e de se libertar de correntes invisíveis.
“A
ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer, tem que destruir um mundo.”
Herman Hesse
Herman Hesse
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