"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Fim de tarde sépia

Talvez tenha sido pela chuva fina e o pôr do sol nessa época do ano. Não sei. Mas o fim de tarde nublado na primavera deixou o dia amarelado e, pelo menos, por alguns rapidíssimos minutos, tudo tinha aquela tonalidade. Parecia filtro do Instagram. 

Me lembrou um sonho que eu tive muito pequena com Maria e João, os irmãos da lenda. Eles soltavam pipa na calçada da casa do meu pai, lá na vila. Estavam parados, um bem ao lado do outro, sérios e mudos. O céu também estava nublado e tudo tinha essa cor. Esse tom. Eu sentia a mesma sensação de “antigo”. Era tão real. Estava eu, sonhando, mesmo?

À medida em que a memória se esvai, me deparo com as gotas da água da chuva na janela do ônibus e volto a observar a rua. As pessoas pareciam bronzeadas. Cada tom de pele ganhou uma intensidade única. As árvores brilhavam. Na altura do Terminal Rodoviário, eu vi uma que me tomou inteira. Pequenina, delicada, com folhas bem verdinhas, bem desenhadas e vários pequenos grupinhos de flores vermelho-paixão espalhados por ela. Tanta beleza não era crível. Não era daqui. Eu estava sonhando? Bem ali. No meio do caos. Raízes, tronco, galhos, folhas, flores, frutos. Arte concreta. Fiquei admirando a árvore naquela luz. O verde saltava em contraste com o céu beje, os prédios cinzas, as lojas lotadas, os carros apressados e outros ônibus grosseiros que passavam. Eu estava sonhando?

Aquela sensação não passava.

Às vezes eu sinto assim. Que a vida é um longo sonho. E quando a gente dorme, na verdade acorda. Sonho é quando a consciência levanta e visita o infinito que é a existência.





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