"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim."

domingo, 11 de julho de 2021

A trilha do Alto Mourão ou um relato de um coração que trilha

Foram 4km e 420 metros de subida.

Eu já cheguei querendo andar no pique, mas aos poucos fui me adaptando e encontrando o ritmo alinhado ao de Mel, minha irmã e Ray, amiga nossa. Uma guiando a outra em momentos diferentes da trilha. Pausa pra um grupo grande passar. Pausa pra um ruído passar – uma caixa de som com "tuntstunts" competia com o som ambiente (nada contra, apenas tudo). Pausa pra fotografar. Registros.

Calcular onde pisa, ter cuidado com as folhas, com a lama. “Cuidado, você pode escorregar e se machucar”, um grupo nos avisou. Uma pessoa que torceu o pé no último trecho do caminho foi resgatada pelos Bombeiros por helicóptero - às vezes a coisa pode ficar realmente séria.

Eu já escorreguei trocentas vezes, já fui picada por uma aranha, já pulei uma cobra que surgiu no meio da trilha, já me estabaquei entre galhos, já fui picada por mosquito e voltei empolada precisando de antialérgico, já me ralei escalando pedra, já corri de meia dúzia de vespas. Ih...

Ainda assim, eu não perco o prazer de fazer uma boa trilha. Às vezes bate um puta cagaço de subir um trecho íngreme e exposto, óbvio. Eu calculo e assumo o risco. Gosto de tentar sozinha, mas, também, se me oferecem ajuda, eu aceito. Ofereço quando posso - apoio moral, principalmente.

As coisas que acontecem vão ensinando cada vez um pouco mais, sobre o que está em jogo e como fazer o manejo disso, sobre estar ali. E pra mim é um realmente um prazer estar ali, no meio do mato todo, ouvindo os animais, os barulhos do caminho, sentindo o sol ou a chuva, sentindo o vento, percebendo meu corpo, meus batimentos, meus passos, minha respiração, meu suor.

Escuta. Visão. Ou “escuta, visão!”. É visão se escutar.

Um dia antes da trilha, fiz um treino funcional (não tão funcional assim, rs) mais pesado, ignorei meus limites e ultrapassei a linha do suportável pelo meu corpo. O resultado? Queda de pressão, quase desmaiei. Fiquei bem depois. Mas entendi que é melhor não chegar a tanto, saber se ouvir é importante.

As trilhas parecem me ajudar a me escutar de maneira gradual e gentil, um passo por vez, a me desafiar. No caminho, os ajustes possíveis, atenção à intuição, ao entorno, aos limites, aos sinais.

Essa trilha, da Pedra do Elefante ou Alto Mourão, eu queria fazer há um tempo. Na semana passada, inclusive, falei dela e hoje eu tenho essa foto bonita no pico mais alto da cidade que me pariu.

Foi bom.

Andei, subi, escalaminhei com vontade, corri. Vi borboleta, escutei passarinho, senti o cheiro verde da mata e de terra molhada, abracei uma árvore e fiquei siderada pela vista do cume. As mãos ficaram marcadas pelas pedras. As pernas estão sentindo cada degrau agora. O corpo tá cansado, mas tô feliz.

Ela foi um mix de fazer acontecer algo que eu queria, assumir os riscos, ter atenção aos próprios limites, receber ajuda ou oferecer quando necessário, apreciar o trajeto, admirar a chegada e depois descer tudo de volta.

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